'Walking Dead' no Algarve

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Tive pena daqueles agentes, “vestidos” com uma camisa de forças no exercício das suas funções, cheios de cuidado para não acicatarem os ânimos de quem já não estava em si.

Tive pena daqueles agentes, “vestidos” com uma camisa de forças no exercício das suas funções, cheios de cuidado para não acicatarem os ânimos de quem já não estava em si. Oito e meia da manhã e o sol já brilha com aquela clareza própria das horas matutinas, o movimento na estrada denuncia que ainda há muitas almas a descansar, exceção feita aos mais atléticos que já correm ou caminham a passo apressado para cumprir o exercício físico diário.

Conduzo devagar, até porque não sei muito bem qual o meu destino, mas com a ajuda do Waze, lá me vou orientando, rotunda após rotunda. À minha direita surge um parque de estacionamento de grandes dimensões, daqueles que são construídos à medida da lotação das discotecas mais próximas. Alguns carros resistem naquele lugar, talvez tenham sido preteridos a uma boleia ou a um Uber que foi chamado à última da hora. Sorte dos que a partir das quatro da manhã conseguem um Uber para os levar a casa, mesmo pagando o seu peso em ouro, por quilómetro e meio. Dizem que é o mercado a funcionar: muita procura e pouca oferta. Afinal, não são só carros que estão no estacionamento. Há vida por ali e quanto mais me aproximo, mais movimento vejo.Para contextualizar quem teve a sorte de, ainda, não ter gravado estas cenas na sua memória, o cenário de fundo de todos os episódios, tem seres, que já foram humanos, a andar à deriva, passo a passo, baloiçando o corpo ora para um lado, ora para o outro. Não primam por um aspeto agradável, antes despertam a repulsa pelos seus olhares mortificados, destinados a um fim que já aconteceu, mas que não se concretiza, a não ser que alguém lhes espete alguma coisa muito afiada no cérebro… Pormenores à parte, basta isto para descrever o cenário real que tinha à minha frente, sem a parte das coisas afiadas, em muito semelhante a um set de filmagens desta série, com os figurantes incluídos. No chão, aqui e ali, avistavam-se “cadáveres” – escrevo cadáveres porque não havia como perceber se dormiam, se estavam em coma, ou se em meditação. Naquele cenário, bem poderiam ser cadáveres. Numa ponta do enorme parque de estacionamento, um grupo de indivíduos uniformizados de azul e com aquilo que pareciam ser as coisas afiadas presas à cintura ou empunhadas com firmeza para se defenderem dos zombies erráticos, moviam-se em bloco, de viatura em viatura. Destoavam naquele deserto pelo aspeto ordeiro com que se deslocavam e pelos rostos em que corria sangue nas veias, com olhares despertos e vivaços. Não apresentavam qualquer ameaça, bem pelo contrário, senti que corriam perigo no meio daquela “fauna” semi-consciente, que teimava em não abandonar o set de filmagens. O argumento é tão simples, quanto preocupante: jovens que combinam encontrar-se num parque de estacionamento para beber e fumar. A rodagem da película realiza-se entre as 23h e as 9h30 do dia seguinte. Os protagonistas têm idades que começam nos 13 anos, mas nada garante que não haja infiltrados com idade inferior . O filme bem que poderia intitular-se “Botellón”, um estrangeirismo importado da nossa vizinha Espanha e que significa beber na via pública. Já nos anos anteriores este fenómeno foi relatado em várias notícias associadas ao excesso do consumo de álcool e aos desacatos que derivaram destes ajuntamentos. Condutas desordeiras provocadas por um comportamento que assenta, primariamente, na vontade de beber só por beber. Para os que fazem o programa noturno completo, o botellón é o chamado “pré”, de pré-aquecimento antes de entrar na disco. Para os frequentadores deste evento, é impensável sair à noite e não consumir bebidas alcoólicas ou com moderação. O consumo moderado compromete a qualidade da noite e o grau de diversão, por isso, vai de carregar os porta-bagagens dos carros, alguns emprestados pelos pais, com gins, whiskeys, vodkas e cervejas e conduzir até ao spot onde todos se encontram para o mesmo. A partir daqui o destino de cada um é uma sorte. Os que já têm entrada assegurada na discoteca e a custo baixo seguem para lá, já “bem tratados”, por que além das entradas que podem chegar aos 50 euros, as bebidas estão caras. A título de exemplo: um gin tónico pode chegar aos catorze euros. Os que não têm como entrar sem pagar e as mesadas não são suficientes para estes gastos, permanecem nos parques de estacionamento, ao ar livre, a beber e a fumar até que a noite acabe. Eram oito e meia da manhã, e ainda havia zombies da noite anterior a deambular entre carros, outros que gritavam que nem loucos, uns que ameaçavam outro grupo de porrada… um grande plano de várias ocorrências em simultâneo inesperadas para quem ali passava. Angustiei-me ao ver aquele espetáculo. Mas houve outra preocupação no meio de tudo aquilo: os agentes de autoridade. Era pedir o nome de cada um deles e emitir um louvor pela sua paciência na tentativa de desmobilizarem aqueles miúdos, que os escorraçavam e vociferavam nomes impróprios em jeito de provocação e com telemóveis apontados, prontos a filmar um vídeo de segundos que haveria de ser editado e colocado no YouTube, a denunciar a brutalidade policial. Tive pena daqueles agentes, “vestidos” com uma camisa de forças no exercício das suas funções, cheios de cuidado para não acicatarem os ânimos de quem já não estava em si. O problema já existe há vários anos e tem vindo a piorar, drasticamente, e, se antes estava circunscrito ao período de férias e ao Algarve, hoje, já acontecem botellóns em Lisboa e noutras cidades. Mais um indicador de que os nossos jovens começam a beber cada vez mais cedo e com maior frequência. Para quando uma campanha a sério para travar este comportamento juvenil ou legislação que demova estes comportamentos e que permita às autoridades uma atuação dissuasora?

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